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Quanto vale uma vida?

“És  fria! “

“Tens mesmo um coração de pedra!”

“Não tens sentes nada pelos outros?”

“Como consegues pensar e reagir assim?”

Isto são algumas perguntas/afirmações que já ouvi ao longo da minha vida.  Sei que tenho uma maneira peculiar de lidar com a perda, mas mesmo assim raramente respondo a este tipo de perguntas. O problema de quem me diz isto é que nunca viveu a minha vida para saber se nasci assim, ou se foi a vida que me fez assim.

Eu fiz 23 anos em Novembro, mas hoje atinge a maioridade a segunda Bárbara que existe em mim. A Bárbara orfã. Nunca gostei deste termo, mas era assim que nos categorizavam. Na escola era a que tinha escalão A, porque o pai tinha morrido – coitadinha – ouvia ao fundo. Na rua era ter de responder às mil perguntas que faziam quando percebiam que já não tinha pai. “Mas quando filha? “, “Ai Meu Deus e porquê?”, “Foi doença?”, “E agora como vai viver esta menina sem pai?”, atiravam, “Se não fosse isto até podiam ter algum futuro estas crianças.”, diziam por fim.

Detesto vitimização. Não suporto nem por nada deste mundo. Não tenho dúvidas que foi em parte por me tentarem vitimizar. Eu não tive culpa, ninguém teve, mas eu não sou nenhuma coitadinha. Há pessoas que partem cedo, demasiado cedo, mas se não fui eu a partir tenho de aproveitar o tempo que tenho. Posso viver com algumas mágoas, afinal quem não as tem, mas tenho de aproveitar a vida na mesma.

Sou mãe, e sei que ninguém faz mais falta do que os pais. Ninguém consegue substituir ou compensar uma perda destas. Existem pessoas que sentem de uma maneira, outras de outra, mas todos sabem o que se perdeu. Eu nos primeiros 10 anos, para ser honesta, nem sentia grande coisa, via em grande plano o sofrimento dos meus irmão, sabia que era suposto sentir-me triste mas nem percebia bem o porquê. Foi no “aniversário” dos 11,12,13 anos que a ficha me começou a cair mais e mais. Comecei a perceber que não sei o que é viver a vida com um Pai. Percebi que faltava alguem a ver e a festejar comigo as minhas conquistas. Que não sei o que é chamar alguém de Pai, que nem sequer sei como é amar um Pai. Eu não consigo nutrir um amor incondicional pelo meu Pai porque eu não tenho bases para fundamentar este amor. Afinal amor também é carinho, companheirismo, são as recordações (que no meu caso são poucas, muito poucas). E é disso que sinto falta. É por causa disso que desde há uns anos para cá passei a entender os meus irmãos. É disso que tenho pena, desse tempo perdido no espaço, desse amor que nunca dei e nunca senti. De tudo o que podia ter sido e não foi. De os meus filhos não terem um avô. E de eu nao ter um Pai. Hoje 18 anos depois ao contrário do que me diziam não dói menos que ontem e não vai doer menos que amanhã. Vai doer independentemente do tempo que passe.

Todos podemos criar recordações boas com os que vivem connosco. Podemos dizer quantas vezes nos apetecer o quanto os amamos. Podemos abraçar sem a outra pessoa estar à espera. Podemos não viver a vida a pensar na morte, mas ao mesmo tempo não desperdiçar oportunidades. Podemos não sair de casa sem dar um beijo no marido e sem dizer aos filhos que eles são muito importantes para nós. Podemos fazer com que nos recordem mesmo depois de partirmos!

Afinal, a vida de alguém não tem preço, pode custar mais ou menos ao longo da vida, e haverão dias melhores ou piores. O mais importante é que não estamos sozinhos nesta batalha <3

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