Meus queridos filhos:

Estou a dois meses de voltar à rotina casa-trabalho trabalho-casa e tenho pensado bastante no tempo. No tempo que preciso para ir e para vir. No tempo que passo a trabalhar e consequentemente na soma enorme de horas que implica estar sem vocês. Tenho pensado no valor do tempo. No valor das coisas. Tenho pensado também no valor que terão (ou não) os bens não-essenciais que compramos, aqueles que nem eu nem vocês precisamos ou ligamos assim tanto.

Fiz juntamente com o vosso pai um exercício simples. Todos os meses consciente ou inconscientemente compramos essas coisas desnecessárias,  se somarmos tudo podemos aperceber-nos de que facilmente representam 10% do nosso orçamento familiar. Esses 10% correspondem a um x de horas mensais que passamos a trabalhar. Não seria melhor deixar de comprar essas coisas mas consecutivamente cortar também nesse x de horas, e passar uma ou até duas tardes por semana com vocês? Não darão vocês mais valor a ter mais tempo de verdade e qualidade connosco? Não darão mais valor às recordaçōes em forma de fotos e videos dessas tardes? Será que não permanecerão mais nas vossas memórias? Trazer-vos ao mundo foi das coisas mais maravilhosas que já me aconteceu na vida, mas não era assim que eu imaginava que as coisas iam ser enquanto vos trazia dentro de mim. Parece que aquele cordão foi apenas meio cortado, e aos poucos é que se está a rasgar mais e mais.

Se dependesse só de mim continuavamos assim, de manhã iam à creche mas à tarde estavam comigo. Eu estava livre para de manhã trabalhar e ser a Bárbara mas à tarde seria a mãe que sempre sonhei.

Neste momento a minha felicidade passa também pela vossa felicidade. Neste momento a minha vida é a nossa vida. Neste momento qualquer escolha que faça tem de ser pensada e repensada mil vezes. Neste momento acima de mim, existimos nós e se quiser traçar um plano vocês terão de ser a base dele. Tenho de ter o vosso apoio. Tenho de vos privar de algumas horas do dia comigo ou de alguns bens não essenciais. Tenho de às vezes vos deixar mais um pouco na creche ou na escola. Enquanto não me dotar do fenómeno da multiplicação tem que ser assim.

A rotina vai voltar ao que era, e eu vou continuar com sonhos por terminar. Decidi que este ano é o Ano! Tenho-os em pausa já há algum tempo, demasiado tempo. Mas aos poucos tudo vai ao lugar. Tenho calma, mas sei que está na hora de fazer alguma coisa por mim, por nós. Afinal se eu estiver bem, mais facilmente estaremos todos bem. Se eu estiver feliz, fazer-vos-ei ainda mais felizes.

Sem pressas e sem sentimentos de culpa. Vamos ver como corre. Vamos esperar que resulte.